Marianne tinha o hábito de deixar a janela entreaberta, mesmo no inverno. Dizia que o ar parado a sufocava, que precisava de sentir o mundo lá fora mesmo que apenas através de uma fresta de vento frio. Essa noite não foi diferente.
O inspetor Caldas encontrou o quarto exatamente como ela o teria deixado: a cama por fazer, um livro aberto com a lombada para cima, uma chávena de chá pela metade. Tudo sugeria uma ausência temporária. Nada sugeria um desaparecimento.
— Ela voltou a sair? — perguntou à irmã, que esperava no corredor com os braços cruzados sobre o peito.
— Marianne nunca saía depois da meia-noite. Nunca.
O vizinho do terceiro andar tinha visto algo. Não tinha a certeza do quê — apenas uma sombra, disse, um vulto que se movia depressa demais para ser comum. Mas havia nas suas palavras uma hesitação que Caldas reconheceu. O medo de dizer demasiado.
A rua estava molhada de chuva recente. As pedras refletiam a luz amarelada dos candeeiros como um espelho partido. Caldas ficou parado no meio do passeio durante longo tempo, a olhar para o prédio, a tentar imaginar o que Marianne teria visto antes de desaparecer.
Nada. E depois — algo.
No fundo da gaveta de Marianne havia uma carta por fechar. Três linhas apenas, escritas com a sua letra inclinada e precisa:
Já sei o que aconteceu naquela noite. Já sei quem esteve lá. Se isto chegar a alguém, significa que eu não pude falar primeiro.
Caldas dobrou o papel com cuidado e colocou-o no bolso. Do lado de fora, a cidade continuava a sua vida indiferente. Algures nessa cidade havia alguém que respirava aliviado — ainda.