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II
Fantasia · Onirismo

O Sonho da Morte

Entre o adormecer e o despertar existe um lugar sem nome. Ela aprendeu a viver lá.

Parte I
 Na penumbra onde o tempo se desfaz e o silêncio respira, uma mulher ofereceu-se à morte por amor. Ela não tinha medo, apenas uma certeza incandescente no peito, proteger aquele que amava com tudo o que era, na carne, no espírito, no além.
 O homem vestido de sombras aproximou-se. Os seus olhos não tinham alma, apenas um fim. Ela aceitou. Ele introduziu-lhe um tubo na boca até ao estômago e quando estava pronto para dar a injeção da morte ele tinha desaparecido num piscar de olhos.
 Movida pela força do amor e da urgência de o salvar, ela segurou seringa. Enfiou-a lentamente, sabendo que atravessava o último limiar. O corpo começou a vibrar como a corda de um violino. O mundo começou a rodar até que o seu corpo se imobilizou mas o espirito não. Sentiu ao que parecia a alma a cair para frente, para trás, novamente como a corda de um violino. E finalmente a alma desprendeu-se da carne, como um véu ao vento.
Parte II  No além, a guerra era subtil e feroz. Ela encontrava-se numa casa invadida por feras consumidas pelas trevas, um urso flamejante e dois felinos da noite. Eles não vinham com garras, vinham com intenções,  tentavam rasgar o seu tecido de luz, o seu espírito. Ela lutou. Protegeu. O corpo espiritual ficou ferido, rasgado, mas ela manteve-se firme. Era guerreira. Guardiã de mundos invisíveis.
Parte III  Ela encontrou o marido. Sem saber como voltou para a carne. A primeira coisa que faz é ligar par ao marido e dizer:
 - Amor, voltei! — disse ela com uma alegria antiga, sagrada.
 Apanhou um autocarro, porque até os caminhos entre os mundos seguem rotas estranhas. Mas nesse autocarro, o destino voltou. O autocarro estava cheio de pessoas, principalmente mulheres, ela observou, como sempre fizera e viu. Viu cinco mulheres armadas com pistolas. A morte, disfarçada de caos, chegou mais uma vez.
 Prepara-se e liga ao marido, “Amo-te com tudo o que sou. Na carne e no espírito. Encontro-te do outro lado, não me vês, mas nunca estarás só meu amor.”
 E com essa última declaração, ela enfrentou o fim. Retirou as armas. E entregou-as ao motorista. Mas foi surpreendida. De costas para todos os passageiros a falar com o motorista sobre o sucedido, sente algo a espetar no seu peito.
 Morreu, voltou para o mundo dos que não têm carne ou densidade.
Parte IV  Seres de luz a aguardavam. Um deles tinha a força e a sensualidade de uma Pomba Gira, envolta em sabedoria ancestral. Eles a observaram com ternura, como quem vê uma estrela recuperar o brilho. Disseram-lhe coisas, sobre missão, sobre amor, sobre renascimento.