Não existe um momento exato em que se adormece. Existe apenas um deslizamento, uma queda suave para dentro de si mesma, e depois — o outro lado.
Lara conhecia bem aquela fronteira. Tinha passado anos a estudá-la, a cartografar os seus contornos imprecisos, a perceber que ela não era fixa. Havia noites em que a fronteira estava perto, quase à superfície da consciência. Outras em que parecia impossível de alcançar.
Mas esta noite era diferente. Esta noite, do outro lado, havia alguém à espera.
Ele não tinha rosto — ou melhor, tinha um rosto diferente cada vez que Lara tentava olhar diretamente para ele. Uma característica comum, percebeu, aos seres que habitam o espaço entre estados.
— Não tens de ter medo — disse ele, com uma voz que soava como papel a ser dobrado.
— Não tenho medo — respondeu Lara. E era verdade. O que sentia era outra coisa. Curiosidade, talvez. Ou reconhecimento.
— Então vem. Há algo que precisas de ver antes de acordares.
No centro do lugar sem nome havia uma árvore. Não uma árvore comum — uma árvore feita de memórias, cada folha um fragmento de algo que alguém tinha esquecido de propósito.
Lara tocou numa folha e viu: uma criança a correr num campo, um homem a despedir-se numa estação, uma mulher a rir com os olhos fechados. Memórias de estranhos. Memórias que tinham sido soltas para não doer mais.
— Porquê me mostras isto? — perguntou.
O guia ficou em silêncio durante um tempo que podia ter sido segundos ou anos.
— Porque uma delas é tua.