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Fantasia · Portal

Travessia entre Mundos

 Anos e anos a sonhar com o mesmo cenário.
 Um elevador, sempre cheio, sempre lento, sempre incapaz de a levar a casa.
 Subir pelas escadas é sempre impossível há sempre algo que a impede, estejam partidas, de pernas para o ar, movediças e de tantas outras formas impossíveis, o caminho por este meio está sempre interdito. Então a única escolha é o elevador. Ela entra e vê-se sempre rodeada de rostos desconhecidos, e aguarda os breves segundos que um elevador demora a percorrer o edifício.
 No entanto este elevador percorre todos os sítios possíveis e impossíveis menos o suposto destino da sua casa. Ele passeava pela cidade, desviava-se, perdia-se, horas depois, ele finalmente parava.
 Em cada sonho um destino diferente. Nunca era simples. Nunca chegava a casa.
 Naquela noite, o sonho repete-se.
 Dentro do elevador, havia um rapaz que gostava dela. O seu olhar era terno, protetor. Havia um homem idêntico a um vulto sombrio, com intenções que não precisavam de palavras. Era alto, cabelo despenteado cinzento-escuro, estava nos seus 50 anos. Ele queria-a.
 Ela sentiu o perigo, o instinto a antecipou-a e fugiu. Fugiu para o meio de uma vila antiga, de tanto correr repousa perto de um arco antigo feito de pedra e o chão feito de calçada. No entanto quando menos espera aparece outro homem. Agarra-a pelo pescoço e leva-a. Ambos os homens faziam parte de um gangue liderado por uma mulher. Levaram-na para a casa da líder.
 A mulher olhou-a nos olhos, falaram algumas irreconhecíveis palavras e libertou-a. Já não queria o seu mal. Perdoou algo desconhecido naquele sonho.
 Mas o primeiro homem não aceitou. Estava sedento, o ódio tinha invadido aquela alma já não tinha nada senão o desejo de a matar.
 Ela correu para um lago. A água parecia verde, era um sítio sagrado, onde só ela podia entrar.
 O cenário era de uma beleza divina, a água brilhava, a floresta envolvia-a com luz amarela, quente, protetora que penetrava pelas altas árvores. No centro do lago, sobre a água, havia um altar com símbolos e palavras antigas numa pedra gasta pelo tempo. Ela mergulhou para fugir á matança do assassino que a desejava e nadou. Nadou para aquele sítio onde ninguém entrava ou via. Parecia uma bolha onde ninguém existia.
 E ali, no altar, bateu cabeça. Era um gesto de fé, de gratidão, de entrega.
 Esquerda, Centro, Direita.
 Oxum e Oxóssi estavam ali. Ela sabia. Sentia. A espiritualidade envolvia-a como um manto invisível e protetor.
 A água de Oxum com a cor de Oxóssi e as árvores de Oxóssi reluziam a cor de Oxum, aquele sítio era o seu refúgio sagrado.
 Mas o sonho não acabou.
 De repente, estava de volta à casa do gangue. O homem que a perseguia estava lá. E desta vez, ele conseguiu. Esfaqueou-a. Vezes e vezes seguidas. Ela sentiu cada golpe. A faca a penetrar inúmeras vezes o seu corpo, cada corte manifestava aquela alma consumida. A dor era real. O corpo doía, o sangue escorria pelo corpo todo e a mente começava a desligar. Um cansaço profundo tomava conta dela. Sentia dores inimagináveis, mas o cansaço e vontade de fechar os olhos era quase imediato.
 Um cansaço que não era apenas onírico, era existencial. Ela sabia, que se se entregasse àquele cansaço, morreria, tanto no sonho como na vida real.
 Ela queria entregar-se, queria parar a dor. Estava imóvel e só a mente funcionava, prestes a desligar-se.
 E então, prestes a partir uma frase ecoou na sua mente inúmeras vezes.
 “Tens o #, tens que ficar pelo #”
 A frase repetia-se tornando-se uma âncora. Ela agarrou-se a esse amor como quem se agarra à última respiração.
 E acordou.
 O corpo ainda doía.
 A alma estava exausta.
 O corpo quase morreu.
 Estava viva.
 Naquela manhã, Ela não acordou apenas de um sonho. Acordou de uma travessia, de um limiar entre mundos, e soube, com uma certeza que não se explica, o amor salva, a fé protege.
 E há forças maiores que nos guiam, mesmo quando tudo parece desvanecido.
 Ela voltou.
 E isso, por si só, já é milagre.