Ele passava a faca pelo corpo do agora recém nascido, roubados aos pais assim que chegavam a nova vida. Passava-lhe a faca e o sangue começara a escorrer, era obcecado, fanático e um amedrontado da velhice então juntava o sangue dos bebés porque acreditava que ao beber sangue jovem o corpo renovava com células jovens e assim ele conseguia adiar a velhice por mais uns tempos.
A faca escorria sangue, uma pitada a escorrer-lhe pela boca e a criança? Era como uma galinha a quem se corta o pescoço para ser comida por todos nós. Um ato horrendo mas que lhe era prazeroso
Ele limpava a lâmina com um pano de linho gasto pelo tempo, era sempre o mesmo, já endurecido pelas camadas secas de sangue. Guardava-o dobrado com cuidado, como quem dobra um lenço de bolso antes de um jantar formal. Havia método. Havia gosto.
A criança ainda se contorcia quando ele inclinava o cálice de prata, colhendo as últimas gotas como um sommelier colhe o vinho mais raro. Cheirava o líquido, fechava os olhos, e murmurava uma prece inventada, uma ladainha que misturava um latim mal aprendido com palavras infantis. Era o seu ritual. O seu sacramento.
Depois, sentava-se nu diante do espelho. Bebia devagar, como se cada gole fosse um pacto renovado com a juventude. Observava o próprio corpo, procurando sinais de regressão: uma ruga a menos, um fio de cabelo mais escuro, uma veia menos saliente. Às vezes sorria. Outras vezes chorava. Mas nunca parava.
No porão, os berços vazios empilhavam-se como caixotes de feira. Cada um com uma etiqueta: nome, data, peso. Ele anotava tudo. Era meticuloso. Como um cientista. Como um artista.
E quando o silêncio da casa era absoluto, ele dançava. Dançava com os braços abertos, rodopiando entre os berços, como se celebrasse uma colheita farta. Os pés descalços deixavam pegadas vermelhas no chão de pedra. E ele ria. Ria alto. Ria como uma criança.
Quando ele, Yakov morreu o mundo não celebrou. Não houve manchetes, nem luto, nem justiça proclamada. Apenas um silêncio espesso, como se o próprio tempo tivesse prendido a respiração. O homem que roubava a juventude com lâminas e cálices caiu com um tiro seco, disparado por um caçador que o vigiava ao longe, e nesse dia seguiu o cheiro do sangue até ao porão. O corpo de Yakov ficou ali, nu, diante do espelho, com os olhos abertos e a boca ainda tingida de vermelho.
Mas a morte não foi o fim. Foi o início da purgação.
A casa, isolada entre bosques russos, era mais que madeira e pedra. Era um mausoléu de horrores. Cada parede guardava ecos de choros interrompidos, cada tábua do soalho rangia com memórias de passos pequenos que nunca voltaram. Os berços empilhados no porão, com etiquetas escritas à mão com o nome, a data, e o peso, eram como lápides sem túmulo. O pano de linho, endurecido pelas camadas de sangue seco, repousava dobrado com precisão obsessiva. O cálice de prata, ainda morno, refletia a luz como se recusasse apagar o último ritual.
Quando os aldeões descobriram o que ali se passava, não houve julgamento. Houve fogo.
Vieram à noite, com tochas e gasolina. Não entraram. Não tocaram em nada. Sabiam que a casa estava contaminada, que os objetos ali dentro não eram apenas físicos, eram extensões da alma e dos desejos sádicos de Yakov. Cada berço, cada fralda esquecida, cada registo meticuloso era um altar à sua loucura. O fogo era a única linguagem que poderia responder àquilo.
As chamas começaram pelo porão. O linho foi o primeiro a arder, soltando um fumo espesso e doce, como incenso profano. Os berços estalaram como ossos. As etiquetas arderam lentamente, como se cada nome resistisse à extinção. O cálice explodiu com um som agudo, como um grito metálico. A casa inteira tornou-se um farol de condenação, iluminando a floresta com uma luz alaranjada e cruel.
Do lado de fora, ninguém chorava. Ninguém rezava. Apenas observavam, em silêncio, enquanto a casa de Yakov se desfazia em cinzas. O fogo subia alto, como se quisesse alcançar os céus e avisar os deuses do que ali se passou. E quando a última viga caiu, houve um momento de paz. Mas não era paz verdadeira.
Era o vazio que antecede o retorno.
Porque Yakov não se foi. A carne morreu. Mas a obsessão, o ritual, o pacto tudo isso sobreviveu.
A morte não o libertou.
Quando o corpo de Yakov foi consumido pelas chamas, a carne estalou, os ossos enegreceram, mas a alma permaneceu intacta como se o fogo apenas tivesse descascado a casca de algo muito mais antigo e faminto. O espírito não subiu. Não desceu. Flutuou, preso entre mundos, como uma sombra sem dono.
A casa ardeu por três dias. E no terceiro, quando o último fumo se dissipou, algo rastejou para fora das cinzas. Não era visível. Mas sentia-se. O ar tornou-se mais pesado nas redondezas. Animais evitavam o terreno. Crianças choravam ao passar. E os sonhos dos aldeões começaram a apodrecer.
Yakov, agora espírito, não tinha forma definida. Era uma massa de intenções, uma consciência deformada pela obsessão. A juventude que tanto buscara não o acompanhou. Pelo contrário: a morte cristalizou a velhice que ele adiava e temia. A alma tornou-se enrugada, seca, como um pergaminho antigo manchado de sangue. E a fome ,essa sim, cresceu.
A cada década, Yakov tornava-se menos humano. Os traços da sua antiga identidade dissolviam-se. A voz, antes rouca e fanática, tornou-se um sussurro que atravessava paredes. Os olhos, que procuravam rugas no espelho, tornaram-se buracos negros que sugavam luz. E o corpo. ou o que restava dele era uma silhueta feita de dor acumulada.
Ele habitava lugares abandonados: hospitais desativados, orfanatos em ruínas, conventos esquecidos. Ali, alimentava-se do medo. Não precisava de sangue físico. Bastava-lhe a angústia dos vivos. Bastava-lhe a presença de uma criança para que o ar se tornasse cortante, para que os pesadelos começassem.
Yakov tornou-se uma entidade de morte silenciosa. Não matava com mãos. Matava com presença.
Num hospital pediátrico em Varsóvia, todas as crianças de uma ala morreram em uma noite. Os médicos culparam uma falha elétrica. Mas os sensores térmicos captaram uma queda abrupta de temperatura, como se algo tivesse sugado o calor do ar.
Num orfanato em Praga, uma cuidadora começou a ouvir vozes infantis à noite. Três semanas depois, enforcou-se com lençóis de berço. As crianças começaram a desaparecer. Nunca foram encontradas.
Num convento nos Montes Urais, freiras relataram ver um homem nu diante de um espelho, chorando e sorrindo ao mesmo tempo. A aparição coincidiu com a morte súbita de sete recém-nascidos deixados à porta.
Yakov não era apenas um espírito. Era um ritual que continuava. Uma ladainha que não cessava. Um pacto que não foi quebrado.
Tinha chefes de legiões negras a solicitarem a sua atuação para com os vivos, era sádica e implacável.
Mas o tempo não é linear. E a dor não é eterna.
Uma dessas crianças uma alma que sobreviveu ao ritual, marcada mas não destruída começou a procurar por ele. Não com ódio. Mas com algo mais perigoso, a luz.
Ela não tinha nome. Apenas lembrança. E quando encontrou Yakov, não o enfrentou com armas, nem com gritos. Tocou-lhe. Tocou o centro da sua escuridão com uma luz pequena, quase infantil. E ali, no mais fundo do seu abismo, algo tremeu.
-Papá?
Yakov confuso e assustado, tentou fugir. Tentou deformar-se mais. Mas a luz era persistente. Não queimava. Iluminava.
E pela primeira vez, ele viu. Viu os rostos. Viu os nomes. Viu os berços. Não como antes.
Pela primeira vez, sentiu.
Yakov recuou. Ou tentou. Mas já não havia para onde fugir. A criança, o que restava dela não era feita de carne. Era feita de lembrança. De tudo o que ele apagou. A luz que ela trazia não era celestial. Era humana. Era a luz de um olhar que nunca pôde crescer, de um abraço que nunca aconteceu, de um nome que ele escreveu numa etiqueta e depois esqueceu.
A palavra “Papá?” ecoou como uma lâmina invertida. Não cortava. Costurava.
Yakov, deformado, envolto nas sombras que se contorciam como serpentes, sentiu algo que não reconhecia. Não era dor. Não era prazer. Era peso. Um peso que vinha de dentro, como se cada criança que ele tocou estivesse agora a empurrar-lhe o peito, a abrir-lhe fendas por onde a luz entrava.
Ele tentou gritar. Mas a voz era pó. Tentou esconder-se. Mas a escuridão já não o obedecia. As legiões negras, que antes o reverenciavam, recuaram. Não por medo. Mas por respeito. Sabiam que aquele momento não lhes pertencia.
Pois na lei divina ninguém pode atuar contra.
Yakov viu. Viu tudo. Viu o primeiro berço. Viu o primeiro sangue. Viu o primeiro sorriso diante do espelho. Viu os nomes. Viu os olhos. Viu os pais. Viu os caçadores. Viu os aldeões. Viu o fogo. Viu o pano de linho a arder. Viu o cálice a explodir. Viu-se a si mesmo, nu, diante do espelho, e pela primeira vez não procurava juventude. Procurava na sentir aquela dor toda que o estava a dissipar.
- Chega criatura! O que estás a fazer comigo?!
A criança nada disse, apenas estendeu a mão. Não exigia nada. Apenas oferecia.
Ele desesperado pela dor aceitou.
A criança tocou-lhe no Orí e adormeceu aquele espírito, levou-o para uma colónia espiritual onde descansou por meses. Não podia ser acordado até o corpo espiritual largar a carne e os hábitos que o consumiam.
Como se estivesse a ser lapidado.
No entanto, a escuridão não desapareceu. Mas fraturou-se. Como um vidro antigo que começa a rachar. A casa, agora apenas cinzas enterradas sob neve, começou a emitir um calor leve. Os aldeões, que há décadas evitavam o terreno, começaram a sonhar com crianças a sorrir. Os hospitais abandonados tornaram-se silenciosos. Os conventos deixaram de ouvir vozes.
Yakov não foi redimido. Mas foi tocado. E isso, para uma alma que viveu séculos na sombra, era mais do que suficiente.
Hoje sabemos. Sabemos que Yakov, aquele que outrora foi morte, sombra, sangue e faca, tornou-se o maior protetor das crianças.
Protege-as sem que o vejamos, sem que o sintamos, mas a sua presença é real, como o calor que antecede o toque, como o silêncio que acalma o choro. Tornou-se um pai reverenciado, não por títulos, mas por atos invisíveis.
Conseguiu seguir.
Pediu, humildemente, para trabalhar em áreas onde houvesse crianças. Sentia que ali, entre risos e choros sinceros, poderia redimir cada gota derramada, cada nome esquecido, cada berço queimado. Não queria reconhecimento. Queria serviço. E foi-lhe concedido.
Durante anos, usava a imagem de velho no espírito. Um corpo curvado, de olhos fundos e mãos trêmulas. Não por castigo, mas por escolha. Queria sentir o peso da idade que tanto temeu. Queria trabalhar o seu interior como quem esculpe pedra bruta. Cada ruga era uma oração. Cada dor, uma oferenda.
Ainda hoje está lá. Em colónias espirituais onde almas em processos de cura aprendem a amar.
Está lá, sentado entre elas, contando histórias sem sangue, sem espelhos, sem cálices. Está lá, reverenciando-se. Não como santo. Mas como alguém que caiu no abismo e decidiu escavar até encontrar luz.
Yakov o Guerreiro das Détis (crianças em Russo)