O problema de ser imortal não é a solidão — embora a solidão também seja um problema. O problema é a repetição. Depois de seis séculos, a maioria das situações humanas deixa de ter surpresa. Os conflitos são os mesmos. Os amores são variações do mesmo tema. Até as revoluções têm um ritmo previsível.
Valéria tinha feito as pazes com isso há uns duzentos anos. Desde então vivia de pequenos detalhes: a forma específica como a luz de outubro entrava numa janela específica, o sabor de um café feito de uma maneira ligeiramente diferente, a conversa inesperada num banco de jardim.
O maior obstáculo prático de ser vampira no século XXI era a burocracia. Valéria tinha vivido em épocas sem documentos, sem números de identificação, sem bases de dados digitais que ficavam eternamente. Agora precisava de reinventar uma identidade nova de vinte em vinte anos, o que implicava contactar certas pessoas, pagar certas quantias, e aguentar a conversa dessas certas pessoas.
Também havia o problema dos selfies. Toda a gente queria tirar selfies. E Valéria não aparecia em fotografias digitais de forma alguma satisfatória — havia sempre um ligeiro borrão, uma distorção de luz, algo que fazia as pessoas olhar duas vezes.
Essa tarde específica, sentada no café do bairro que frequentava há quarenta anos sob nomes diferentes, Valéria ouvia a conversa da mesa ao lado: dois jovens a discutir com uma intensidade extraordinária se as estrelas eram sencientes.
Não eram — ela sabia, tinha tempo de sobra para estudar astronomia — mas a intensidade deles, a forma como acreditavam que esta conversa importava, que esta questão precisava de ser resolvida hoje, aqui, neste café com café quente e copos de água —
Valéria sorriu para a chávena.
Era isso. Era sempre isso. A razão para continuar era sempre alguém, em algum lugar, a discutir algo com a convicção de que importava.