Dizem os mais velhos do bairro que quando um corvo pousa no seu telhado e não voa durante mais de uma hora, alguém da casa vai morrer antes do amanhecer. Dizem também que isso é superstição, coisa de outro tempo, e que ninguém devia dar importância.
A Dona Isaura dava.
Essa noite havia três corvos no seu telhado, e nenhum deles se movia. Ficavam ali, negros e perfeitos contra o céu alaranjado da cidade, com aquele silêncio que não era ausência de som mas presença de outra coisa.
Às três da manhã, um dos corvos abriu a boca. O som que saiu não era grasnido — era fado. Uma voz rouca e feminina, cheia de saudade e de saber, a cantar uma melodia que a Dona Isaura reconheceu imediatamente.
Era a voz da sua mãe. Morta há vinte anos.
A canção falava de uma despedida que não tinha acontecido, de palavras que ficaram por dizer numa tarde de setembro. A Dona Isaura sentou-se na cama e chorou, não de medo, mas de alívio. Finalmente. Finalmente aquelas palavras tinham chegado até ela.
De manhã, os três corvos tinham ido embora. No telhado havia apenas uma pena negra e um pequeno pedaço de papel dobrado que ninguém conseguiu explicar como tinha chegado ali.
No papel estava escrito, com uma letra que a Dona Isaura reconheceu como a da sua mãe:
Já sei. Está tudo bem. Vai viver.
A Dona Isaura dobrou o papel, colocou-o dentro do livro de orações, e desceu para fazer o pequeno-almoço. Pela primeira vez em vinte anos, não sonhou com ela.