Antes de saber que estava a partir-se, o corpo já sabia. Manifestava-se em pequenas coisas: o café que ficava frio sem ser bebido, os livros abertos na mesma página durante dias, a incapacidade de olhar para o espelho durante mais de dois segundos.
Ela chamava a isso cansaço. Era mais fácil.
Mas o corpo sabia. E continuava a saber, silencioso e paciente, enquanto ela construía à sua volta uma arquitetura de normalidade que não enganava ninguém — especialmente a si mesma.
O sonho era sempre o mesmo: uma praia sem fim, areia fina e branca que entrava pela boca, pelos olhos, pelos pulmões. Não havia dor — apenas preenchimento. Como se o vazio dentro dela estivesse a ser colmatado por algo sem forma nem peso.
Acordava com a sensação de ter engolido luz.
Durava talvez trinta segundos. Depois voltava tudo — o teto branco, o barulho lá fora, o peso habitual do dia que começava. Mas nesses trinta segundos ela percebeu, uma vez, o que seria estar bem de verdade.
Não gritou. Nunca gritou.
Guardou tudo com o cuidado de quem arruma objetos frágeis numa caixa — com algodão à volta, com espaço suficiente para que não se toquem e quebrem. Durante anos achou que isso era força. Mais tarde percebeu que era apenas adiamento.
O grito estava lá. Sempre esteve. Vivia algures entre o esterno e a garganta, uma coisa viva e impaciente, à espera de uma brecha.
Um dia, na fila do supermercado, a ver uma embalagem de bolachas, a brecha abriu-se. E ela deixou.