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IV
Poético · Visceral

Gritos Olhos Areia

A Praça do Norte
 Chegara há poucos dias a Belziburg, mas já sentia que o corpo carregava dias de cansaço. Ofélia caminhava ao lado do marido por uma praça desconhecida, um lugar que não estava no mapa, mas pulsava como se existisse desde os tempos do gelo. O frio tocava de leve, e o céu estava suspenso entre o cinzento e o encanto.
 Havia uma agência de viagens ali, mas não vendia passagens: vendia lembranças e bilhetes de lotaria. Na vitrina, uma única relíquia a chamava, uma enciclopédia antiga, com capa de couro vermelho azulado e letras douradas: A História de Belziburg: debaixo das pedras, acima da aurora. Custava apenas oito euros. Era como um segredo esperando ser lido.
 Quando abriu o livro, as imagens dançaram, cidades antigas que se erguiam e afundavam, rostos ancestrais que pareciam fitá-la com ternura e aviso.
 Mas então, surgiram pessoas que nunca vira antes. Riam como velhos amigos. Um deles abriu uma grelha de ferro no chão da praça. Convidaram-na a descer. E ela foi.
 Ali embaixo, o tempo não tinha nome.
 Era um subterrâneo sujo, quase esquecido, onde a luz vinha das paredes, como se o próprio lugar respirasse sombras. Os amigos estavam lá, quatro ao todo. Quando viram a enciclopédia nas suas mãos, sorriram como se ela tivesse trazido um sol. Mas o momento durou pouco.
 Uma mulher apareceu. Alta, de cabelos pretos despenteados, vestindo o tempo nos olhos. Dava a mão a uma menina pequena, pálida como vela. Era ela. Ofélia soube na mesma hora. Era a mulher e a criança. Passado e guardiã.
 A mulher gritou. Não palavras, mas sons antigos. Como um eco vindo das águas de Iemanjá misturado com o riso das tempestades. Ninguém teve medo. Era um grito que limpava. Que lembrava.
 Ela escolheu um dos rapazes. Tocou-lhe o ombro. E de repente… estavam livres. A porta abriu-se. Ela desapareceu.
 Na túnel apenas um garfo partido metálico, que se movia como se tivesse vontade própria. Sinal ou guia?
 Foram atrás dele, Seguindo o garfo que se movia como um oráculo, o grupo entrou por um túnel à direita. O chão rangia sob os pés. O ar era denso, cheirava a ferro e silêncio. O espírito da mulher já não estava visível, mas a sua presença permanecia no ar, como perfume antigo.
 Ofélia ia à frente. O marido, atrás, atento a cada passo dela. Mas o caminho estreitou-se, e antes que se dessem conta... caíram.
 Ela travou-se com as mãos, ficando na borda de uma encosta de areia quente. Ele rolou mais para baixo, em direção a um lago espesso de fogo e vapor, como o coração de um vulcão triste.
 Foi então que elas vieram. Milhares de cobras, pretas, cinzentas, de olhos foscos, a serpentearam areia abaixo, como um exército silencioso. E todas foram ter com ele. Ofélia em choque tentava gritar, mas o som mal saía. Ela sentia que não eram cobras comuns eram medos antigos, ecos de vidas, partes de si que ainda não se revelaram.
 O monte de areia onde ela estava começou a pulsar. Como um peito. Como se respirasse.
 Olhou em volta: valas perfeitas, e dentro de cada uma, algo escuro e profundo, buracos perfeitos, até que continuou a olhar e viu: olhos. Na areia, mas vivos. Alguns com pestanas, outros piscaram. Todos estáticos numa só direção.
 E então percebeu que cada olho era alguém que ali caíra antes dela, cada buraco, uma história interrompida.
 A areia que a sustentava era feita de almas. Gente que perdera o jogo.
 Lá embaixo, o marido estava cercado pelas serpentes. Mas não gritava. Estava imóvel, como em transe.
 Quando Ofélia quis descer, algo a impediu. Uma presença. Forte. Feminina. Invisível.
 O vale cedeu, e Ofélia foi levada por uma corrente de areia e sombra até um grande átrio subterrâneo. Era como um tribunal antigo, esculpido por mãos que já não existem. Havia ali bancos de pedra, cada um ocupado por figuras apáticas, em silêncio.
 Ao centro, uma arena de pedra rodeava um lago vermelho que ardia e cantava em lamentos. De um lado, homens jovens, presos pelos tornozelos, eram mergulhados ritualmente naquele líquido incandescente. Era um jogo e perder significava desaparecer.
 Ofélia sentou-se num banco lateral. Ao lado dela, uma rapariga de olhos risonhos e alma leve. Chamava-lhe de amiga, embora nunca a tivesse visto. Ela ria do absurdo, da dor, como quem já sabia que o corpo era apenas a primeira prisão.
 Um homem apontou para a amiga e murmurou: “Está já passou de nível.” Mas ao invés de a libertar… levou-a. Para usá-la. Como se o avanço fosse um disfarce da opressão.
 Ofélia tremendo por dentro, pedia autorização para tudo, para comer, para lavar as mãos, para respirar. Sabia que cada passo poderia ser mal interpretado pelos regentes daquele submundo.
 Foi quando alguém que conhecia no mundo desperto apareceu.
 Um padre. Vestia branco, e os olhos eram como espelhos de água. Sentou-se no banco oposto, mas ela chamou-o:  Senta-te aqui comigo. Preciso falar contigo.
 Ele veio. Mas antes que ela falasse, o olhar dele varreu o lugar. Então, com voz firme e disse apenas SOAG.*
 SOAG - Quatro letras que ficaram a ecoar como um código. Ela não sabia o que era. Mas ele sabia.
 Antes que pudesse perguntar mais, algo se acendeu atrás dele, como uma tocha feita de perfume e furacão.
 Ela apareceu.
 A mulher de cabelos revoltos e olhos de estrela morta. A criança não estava mais com ela,agora, ela vinha inteira. Avançou entre os homens, entre os lamentos, entre as cobras. Parou diante de Ofélia, não gritou. Gargalhou, com uma voz que cheirava a cemitério e jardim.
 Ofélia então lembrou-se:
 “A minha guardiã. A que me segura desde antes de eu saber falar. A que me protege mesmo quando a esqueço. A que não me abandona nem no inferno das minhas dúvidas.”
 Ela sorriu. E o chão tremeu. Um dos olhos de areia acendeu-se como brasa. Uma porta invisível se abriu.
 O chão estremeceu quando a mulher-espírito sorriu. Não era um sorriso doce. Era ancestral, escuro, profundo, como quem sabe de tudo o que foi e ainda será.
 Ela girou lentamente sobre os próprios pés. Dos seus cabelos escorria areia. Cada fio era uma estrada esquecida. No pescoço, uma gargantilha com sete pontas como encruzilhadas cravadas em ferro.
 Na mão direita, segurava o garfo partido, que agora parecia feito de ossos e prata. Com ele, desenhou no ar um símbolo. Primeiro uma estrela se 5 pontas e depois um círculo, depois uma chave.
 Cruz. Círculo. Chave.
 Três sinais. Três caminhos. Três escolhas.
 Ofélia sentiu o peso do momento. O padre colocou a mão sobre o coração e repetiu:
 - SOAG.
 E desta vez, as letras ecoaram como se fossem palavras inteiras. Ela entendeu:
 Segue, Ouve. Avança. Guiada.
 O espírito da mulher estendeu a mão como fizera com a criança e disse, sem abrir os lábios:
 És tua. Sempre foste. Basta lembrares.
 Ofélia tocou o garfo. E ao fazê-lo, viu.
 Viu seu marido num plano de areia onde as cobras agora o rodeavam, mas não o atacavam protegiam-no.
 Viu os olhos de areia, agora fechados em paz.
 Viu o lago vermelho transformar-se em um espelho e rapidamente regressou.