Hedda ensaiava a sua vida como se fosse uma peça de teatro. De manhã, ao levantar, escolhia qual a versão de si mesma que iria interpretar: a segura, a gentil, a indiferente, a apaixonada. Tinha um repertório vasto e ia aperfeiçoando cada personagem com anos de prática.
O problema não era a atuação. Hedda era extraordinária a atuar.
O problema era que em algum momento — habitualmente perto das três da tarde, com luz natural a entrar pela janela — ela esquecia qual era o papel e ficava apenas ela. E ela era aterradora na sua ambiguidade.
Havia um espelho no corredor que mostrava sempre um décimo de segundo de atraso. Hedda tinha reparado nisso cedo, e evitava-o. Não por superstição, mas porque aquele décimo de segundo era exatamente o suficiente para apanhar a expressão que ela tinha antes de compor o rosto.
Uma vez, por acidente, viu.
O que viu não era tristeza nem alegria. Era uma espécie de atenção absoluta, como a de alguém que está prestes a perceber algo muito importante. Como se ela estivesse sempre, permanentemente, no momento anterior à revelação.
No sonho, Hedda caminhava por uma cidade que reconhecia sem nunca ter visitado. As ruas tinham os seus nomes escritos nas paredes — não o nome que usava, mas outro, um nome que sentia que era o verdadeiro.
No sonho, as pessoas cumprimentavam-na por esse nome e ela respondia naturalmente, sem hesitação, sem ensaio.
Acordava sempre com a sensação física de ter perdido algo. Demorava alguns minutos a perceber o quê: a facilidade. No sonho tudo era fácil. Ser era fácil.
Depois fechava os olhos e tentava voltar. Nunca conseguia.