Todos os contos
V
Drama · Identidade

Hedda, um sonho desperto

 Numa casa aparentemente comum, cercada por bosques silenciosos e um céu eternamente em tons de crepúsculo, vivia Hedda. Ela desconhecia que aquela casa fora erguida sobre um véu antigo de magia, e que ali nascia, com ela, um poder ancestral.
 Hükyr, um troll de pele esverdeada como pedra molhada e olhos que viam além desta dimensão, descobriu que Hedda era guardiã de uma magia que ele acreditava ser sua por direito. Convencido de que todo o bosque lhe pertencia, planeou recuperá-la.
 Para isso, forçou Fyira, uma bruxa de dons metamórficos,  a ser os seus olhos. Fyira transformou-se num gato de pelo roxo e brilhante, com olhos verdes e penetrantes. Introduziu-se na vida de Hedda com elegância e encanto, tornando-se uma presença constante e misteriosa.
 O que Hedda não sabia é que, através de laços telepáticos, Fyira informava Hükyr sobre cada um dos seus passos.
 A cozinha tornou-se um palco de encontros ocultos. Bruxas vinham e iam, sussurrando em línguas antigas. Fyira liderava-as, mesmo na forma felina, não precisava de forma humana para ser respeitada, a sua presença bastava.
 Hedda, intrigada, deixou que Fyira entrasse não só em sua casa, mas no seu coração. Porém, começou a sentir uma inquietação, sentira que partes de si estavam a ser partilhadas sem a sua permissão.
 Foi então que um grupo de aliados, seres dos recantos esquecidos do bosque, a procurou. Através de oráculos e sinais, revelaram-lhe o plano de Hükyr, queria roubar-lhe o coração, não por amor, mas como fonte da sua magia. E mais, pretendia forçá-la a casar-se com ele, selando assim o poder para sempre.
 Reuniram-se na antiga casa de banho, o único lugar que Hükyr não podia ver, e ali traçaram planos de fuga e feitiços de proteção.
 Mas então… o chão tremeu.
 Hükyr cruzou o limiar da casa com passos como trovões abafados. A madeira gemeu sob o peso da sua presença. As velas tremularam.
 Na casa de banho, os aliados seguravam talismãs, runas e pensamentos corajosos. Hedda estava no centro. O coração batia como um tambor ancestral,  não de medo, mas de algo que despertava. Uma voz interior murmurava: “a força vem de dentro para fora.”
 Fyira entrou silenciosamente, ainda na forma de gato. Os seus olhos cruzaram-se com os de Hedda. Por um instante, o tempo parou. Não houve palavras, mas emoções densas fluíram entre elas, culpa, desejo, admiração, dúvida.
 Hedda compreendeu então: Fyira não era apenas um gato. Era uma alma dividida, que aprendera com ela algo que Hükyr nunca entendera, empatia. Nessa troca silenciosa, Hedda tocou-lhe o coração com compaixão inesperada.
 Quando Hükyr finalmente apareceu, imenso, brutal, com intenções sombrias escancaradas, Hedda ergueu-se. Não em ataque, mas com coragem e escolha. O seu peito brilhou como uma luz viva, absorvendo todas as cores da dor, da verdade e da esperança. E disse, com voz serena e firme:
 — Se queres o meu coração, então escuta-o primeiro. Sente-o. Sente que te quero compreender, que te aceito como és, que te temo… mas que me temo mais a mim mesma. Não temos de ser inimigos.
 Hükyr hesitou. As palavras eram flechas de emoção, atravessando muros de raiva. Por um instante, sentiu algo novo, um calor suave, que nem sabia ter. E desapareceu… como um eco, um brilho fugaz.
 A magia de Hedda não era feita de feitiços ou encantamentos. Era feita de presença, de escolhas, da capacidade de transformar dor em força e vulnerabilidade em verdade.
 O coração permaneceu onde sempre estivera, dentro dela, mas agora desperto, luminoso, inquebrável.
 Entre a brisa da manhã e o ronronar do gato, Hedda acordou. Tudo parecia um sonho.
 Olhou para Fyira e disse:
 — Um coração pode sofrer… mas nunca se parte. Não existe poder no mundo que o possa partir por completo. Nas profundezas da noite, há sempre um coração incompreendido e revoltado. Se em nós vive um Deus, acredito que também vive uma chave, uma que nos abre e nos revela por dentro. Somos nós quem decide. E entre todas as escolhas… eu escolho ser fiel ao que sinto.  Fyira observou-a, curiosa, com os olhos da bruxa no corpo de felino. Sabia que aquela mulher tinha um dom raro. Mas não a temeu. Ficou com ela. Para a guiar.
 Gato na vida.
 Bruxa na sombra do desconhecido.