Antes da luz, antes do medo, apenas existia um conforto. Silvas não sabia o que era mundo, apenas sentia o pulsar da mãe como um eco profundo, embalando a sua existência e a dos seus irmãos no ventre. Tudo era húmido e seguro, um casulo que o envolvia sem fome, sem dor, sem medo e sem tempo. E então chegou o momento. A rutura. O choque do frio, a luz crua invadiu os seus olhos frágeis, o primeiro suspiro forçado pelo mundo que não pediu permissão para recebê-lo. O seu pequeno corpo tremia ao tocar o chão áspero, sentindo o cheiro da sua mãe, dos irmãos, dos sons da vida à sua volta. Assistia, mas nada compreendia.
Nos primeiros dias, o mundo era simples. O leite quente, o amontoado de corpos que davam segurança, o som ritmado da fazenda. Ele aprendeu a andar, a sentir o sabor das manhãs, a reconhecer os donos que vinham e iam. O cheiro de terra molhada já era familiar e os humanos sorriam ao vê-lo crescer. Crescer. Estava sempre a crescer, tinha de crescer. Ele não sabia que sua existência já tinha destino traçado. Cada grama a mais era motivo para celebrar. Os humanos mediam o seu peso, tocavam na sua pele, falavam sobre ele com satisfação. A comida era abundante, servida sem hesitação, e o prazer de comer se misturava com um sentimento estranho, algo que ele não sabia frasear. Então os irmãos começaram a desaparecer.
Primeiro um. Depois outro. Chamados, levados, e nunca voltavam.
– Onde estão todos? – questiona Silvas.
Primeiro, pensei que era um jogo, talvez tivessem ido explorar além da cerca, talvez houvesse um outro lado que eu ainda não conhecia. Mas os dias passavam, e ninguém voltava. Lembro-me de quando éramos muitos. O calor dos corpos, o toque familiar, o cheiro que se misturava ao nosso. A segurança de estar com aqueles que nasceram comigo, que vieram ao mundo da mesma forma, juntos. Agora, olho ao redor e não os vejo. Só vejo outros, estranhos, rostos que não me são familiares, que não sabem meu nome, se é que tenho um. E os humanos... Eles continuam sorrindo, continuam a trazer comida, a medir o meu corpo, a tocar na minha pele. Falam de mim como se eu fosse algo além de mim mesmo. Para eles, tudo parece igual. Nada mudou. Mas mudou. Eu sinto que mudou.
Os que partiram nunca voltaram. Eu esforço-me para lembrar dos sons que ouvi antes de irem. Passos apressados, vozes baixas, um portão que se abre, um ruído distante. Não gritaram, não protestaram, apenas foram. Será que eles sabem para onde vão? Será que vão para um paraíso? Acho que ouvi algo sobre isso, mas porque não me levam também? Será que tenho algum problema? Há um estranho silêncio na quinta. O cercado parece maior, mais vazio, sinto melancolia no ar...
Quando chega a noite, eu fecho os olhos e tento lembrar-me do calor da minha família, toda junta, mas tudo o que resta é a madeira fria, a respiração dos desconhecidos ao meu redor e os seus sons. Talvez amanhã seja a minha vez. E quando eu for, será que algum deles sentirá a minha falta? Silvas acabou por adormecer e a noite passou. Ele acordou e soube, de imediato, que algo estava diferente. O cheiro da terra molhada já não estava ali. O calor da cerca, dos corpos próximos, da madeira gasta, tinha desaparecido. O chão sob seus cascos não era mais o mesmo. Era frio. Liso. Estranho. Estava tudo meio escuro e a rua parecia andar.
– Que estranho. a rua está a andar? Que som é este? E este cheiro? ESPERA!
Finalmente, chegara sua vez. A alegria percorreu-lhe o corpo como um tremor súbito. Esperou tanto por esse momento! Agora era real! Agora ele também partiria como seus irmãos antes dele! O destino final, o grande mistério que todos haviam enfrentado... finalmente ele também faria a viagem! Olhou ao redor, empolgado.
– Tantos outros porcos juntos! Alguns tão grandes como eu, outros menores, alguns ainda cabem na barriga das mães. Mas todos estão aqui pelo mesmo motivo não estão? Todos juntos rumo ao paraíso! – monóloga Silvas.
Com olhos brilhando de expectativa, começou a perguntar:
– Vocês conhecem os meus irmãos? Os porcos olhavam-no, confusos, sem saber do que ele falava. – Eles foram antes de mim. Devem estar esperando lá. E minha mãe também.
Um porco mais velho balançou a cabeça sem responder. Outro parecia inquieto, sem entusiasmo. Mas por que não estavam felizes? Não era este o dia mais esperado? Ele continuou olhando ao redor, buscando aqueles que compartilhariam a sua alegria. Então viu os pequenos. Bebés. Porquinhos recém-nascidos.
O seu entusiasmo dissolveu-se num instante.
– Por que estão aqui? Vocês são tão pequenos...
Ninguém respondeu. Apenas o silêncio. Apenas o vento que entrava pelas frestas invisíveis. Sentiu um aperto no peito, algo não fazia sentido. Por que iriam para o paraíso tão cedo? Não estavam felizes? Não estavam ansiosos para reencontrar suas famílias? A alegria que o envolvia começou a desaparecer, como vapor que se dispersa antes que possamos segurá-lo. Olhou para os adultos ao redor, mas ninguém parecia disposto a responder. Foi então que sentiu algo novo. Algo que nunca havia sentido antes. Uma pontada de dúvida.
E, pela primeira vez desde que nascera, começou a suspeitar que talvez tivesse compreendido tudo errado.
– Será que o paraíso é algo mau?
O camião parou com um solavanco brusco. O chão tremeu sob os seus cascos, e o silêncio pesado foi quebrado pelo barulho do veículo a desligar. O cheiro de sangue chegou antes mesmo que Silvas pudesse ver. Entrou pelas suas narinas como um golpe seco, denso, impossível de ignorar. Olhou ao redor e viu os outros porcos inquietos, movendo-se nervosos dentro do espaço apertado. Um barulho metálico soou à frente. O portão do camião foi aberto. A luz lá fora não era dourada nem acolhedora. O céu estava escuro, o ar pesado, como se até o próprio mundo soubesse o que acontecia ali. Os humanos estavam ali. Silvas viu-os movendo-se entre sombras e névoas de vapor quente, falando com entoações estranhas. As suas vozes não tinham o tom festivo que ele esperava, mas um peso frio e sombrio. Então umas mãos grossas agarraram o seu corpo. Ele tentou se firmar, mas foi puxado sem escolha. O seu corpo tremia, sem saber o que estava para vir. E pensou: “Que paraíso é este? Mãe?” E então vieram os gritos. Gritos altos, cortantes, vindos de dentro daquele lugar escuro. Gemidos que faziam o ar tremer e o chão pulsar. Um som que não pertencia a paraíso nenhum. Silvas sentiu sua pele arrepiar, o seu peito apertar. Estava tudo errado! Onde estava sua mãe? Onde estavam seus irmãos? Porque ninguém estava feliz?
– Porque ninguém fala comigo?
A fumaça subia, misturada ao cheiro de carne quente e ferro. O som de máquinas soava junto aos gritos. O medo dos outros porcos transformava-se num pânico silencioso, os olhos arregalados e os corpos tensos. Silvas finalmente entendeu. Seu coração disparou, suas pernas tremeram, seu peito se apertou com um desespero novo e cruel.
Não havia paraíso.
Havia apenas a espera pela morte.