Todos os contos
VII
Fantasia · Proteção

O Espectro de Guardião

 O vento ouvia-se como um sopro assustador que se fez sentir naquela noite, era forte demais para ser ignorado.
 O tempo havia se enraizado nas paredes cheias de histórias antigas de uma guerra que já morrera. Impregnando o ar com um cheiro de mofo e uma história esquecida.
 Prédios em tijolo, um cheiro diferente metálico, quase como se a morte a observava, sentia-se insegura, e com o seu instinto de sobrevivência ativo.
 Sentia mas nada via.
 Esta coisa que a incomodava fazia parte da guerra que tinha consumido aquela vila, tantas mortes, que as paredes gravaram os acontecimentos desse tempo.
 Então ela percebeu uma presença, sem rosto ou corpo, invisível, na realidade, todas as presenças se fizeram sentidas, impregnadas naquelas paredes, sentiam-se os gritos e os desesperos, de um povo injustiçado, lamentos, súplicas, tudo.
 Mas havia aquela presença que a incomodava, não tinha corpo, não tinha rosto. Pairava como um vulto invisível, um olhar sem olhos que perfurava a escuridão, esperando, desejando, procurando uma falha sob o véu que dividia os mundos, para consumir almas vivas.
 Mas não conseguia.
 E então decidiu usar um lobo.
 De dentro da sombra rastejou uma criatura de olhos ocos, a pele áspera como carvão, o seu focinho gotejava um líquido branco, espesso, de odor forte.
 O seu rosnar vibrava no peito como um trovão distante, anunciando seu único propósito, matar.
 O primeiro ataque foi inesperado, de garras e dentes, consumido pelo ódio, ataca.
 Mas ela reagiu com instinto. Pegou um lápis do seu bolso. Frágil, ridículo, um objeto humano contra uma besta que não pertencia ao mundo dos vivos. Mas ela não tinha outra escolha, senão lutar para sair dali viva.
 O lápis penetrou a pele negra do lobo com força. Um som seco ecoou quando afundou na carne podre, mas a criatura não recuou. Não sentia dor. Não sentia nada.
 Cada movimento dela era uma tentativa desesperada de manter a besta afastada. Os buracos abertos na sua pele eram apenas feridas, buracos inúteis, pois o lobo não era feito de carne real, ele era uma extensão da vontade sombria que pairava sobre ela.
 E então chegou, sem estar a sua espera chegou. Um rafeiro preto e branco saiu das sombras, movendo-se com uma calma que contrastava tudo o que estava a acontecer. Os seus olhos não tinham medo. Ele não correu. Não lutou. Apenas caminhou.
 Mas o lobo hesitou.
 Ela sentiu o corpo quente do guardião ao seu lado. Cada passo um escudo contra a fera que esperava, observando, ansiando pela chance de atacar, Mas o cão nunca lhe deu essa chance. Ele andou sem pressa, guiando-a como se tivesse um propósito maior.
 Quando ela cruzou o limiar da casa, o cão simplesmente desapareceu. A noite terminou.
 De repente, tudo ficou negro e um som ofegante inundou aquele sítio.
 Foi um pesadelo, um simples pesadelo que se havia dissipado no silêncio daquele quarto escuro.
 Uma cabeça cheia de pensamentos e receios, mas a sua mente focava no rafeiro que a protegeu.
 Este tipo de sonhos eram normais pela sua mente perturbada da realidade que vivia, mas agora tinha forças para continuar a lutar.
 Sentiu que não está só, e que de alguma forma um cão a protege, como um guardião da sua alma.
 Ela precisava disto, para continuar a enfrentar as dificuldades do dia a dia, da vida. Tal como os religiosos se agarram a um Deus para encontrar e dar sentido à vida.