O primeiro sinal é sempre o mesmo: os olhos ficam ligeiramente desligados. Não como os de alguém distraído — como os de alguém que está a ouvir uma frequência que mais ninguém consegue captar. Uma atenção dirigida para dentro, ou para um lugar que não está nesta sala.
A Dra. Ferreira tinha visto esse olhar muitas vezes. Nos dossiês chamava-lhe dissociação. Mas havia algo naqueles casos específicos que a incomodava — a forma como o olhar não regressava completamente. Como se uma parte da pessoa ficasse lá, onde quer que tivesse ido.
Os registos mostravam um padrão geográfico. Trinta e dois casos em onze meses, todos no mesmo raio de dois quilómetros, todos com a mesma característica: os pacientes funcionavam, respondiam, interagiam — mas algo fundamental estava ausente. A espontaneidade. O imprevisto. A capacidade de ser apanhado de surpresa por algo belo.
Eram pessoas a funcionar em modo de manutenção, disse ela ao colega. Sem que ninguém soubesse o que tinha desligado o modo principal.
A Dra. Ferreira nunca publicou as suas conclusões. O que tinha encontrado — e ela tinha encontrado algo, tinha a certeza disso — não caberia em nenhuma publicação científica sem destruir a sua carreira.
Em vez disso, guardou os dossiês numa caixa, mudou de especialidade, e começou a estudar o que estava na fronteira entre o que a ciência podia medir e o que ficava de fora.
Às vezes, em sessões com novos pacientes, via aquele olhar. E movia subtilmente a cadeira para mais perto deles, como se a proximidade pudesse ser algum tipo de proteção.